A Comovente História do Dia da Kalunga
(Cuidado, paredão de texto adiante.)
(Se bem que, se não quiserem ler, não reclamem que eu posto pouco. Beijos.)
Desde que nasci moro no mesmo prédio. Quer dizer, não só no mesmo prédio, mas na mesma COHAB. O lugar em que moro não é EXATAMENTE um Conjunto Habitacional propriamente dito, dado que não possui tal alcunha e nem danone à vontade. Porém, o condomínio - que ocupa um quarteirão inteiro - conta com nove (!!!) blocos, somando 396 apartamentos. Com tanta gente assim morando no mesmo lugar, os exemplares de estereótipos de vizinhos são altamente numerosos: casal recém-casado do segundo andar, trambiqueiros que não pagam o condomínio, gostosas que trocam de roupa com a janela aberta, velhos adoentados, velhas loucas dos gatos e crianças pentelhas. É como participar diariamente de um filme brazuca do John Hughes (ou de um episódio do Chaves).
Descanse em paz, John :(
E é sobre as tais crianças pentelhas que quero contar. Eu era um guri tranquilo e bem pouco pentelho, também pudera, entre a patota de pequerruchos que competiam comigo pelo metafórico troféu de "Criança Mais Pentelha", estava um que fez cocô na meia e jogou-a ralo abaixo, entupindo o sistema de esgoto do prédio inteiro, e outro que roubava os cartões de ponto dos funcionários da limpeza e escondia-os no barranco, por motivo nenhum.
Acontece que, assim como em vilas ou em ruas, a cada época aparecia uma "mania" nova no condomínio. Mania esta que, trazida da escola ou de outro lugar, fazia com que todos os pirralhos entrassem numa espécie de meme, brincando das mesmas coisas, falando das mesmas coisas, consumindo as mesmas coisas. Desde mania do patins e mania da bicicleta até mania dos Mamonas Assassinas e mania dos iôiôs da Coca-Cola, passando pela mania do olhou-toma-soco-no-braço (esporte semi-olímpico que merece um post à parte) e a mania do abaixa-as-calças-do-babaca.
"Abaixa-as-calças-do-babaca? Como assim?" - indagou a querida leitora, pois os leitores, aqueles que carregam um pipi, já sabem do que se trata. Explico: os meninos pré-adolescentes, entre 12 e 14 anos, tem as brincadeiras mais imbecis e tacanhas que já constaram na ludopédia da humanidade. Entre elas, essa que consistia em abaixar as calças do seu amiguinho quando este estivesse distraído apenas com objetivo de desmoralizá-lo e expô-lo ao ridículo. Ao abaixar as calças do infeliz, os garotos próximos seguiam-se a rir e a chacotear (!) a vítima do chiste (!), interrompendo quaisquer atividades que ocorriam no momento, por mais importantes que fossem, como a final do campeonato de rolinho-porrada.
Final da Little-Roll Punch World Cup
Notem o altíssimo nível tático e estratégico do jogo
J-Rorinho Sokonakara Federation
Os japoneses melhoraram o jogo, removendo o elemento 'bola'
Voltando ao "abaixa-as-calças-do-babaca": Obviamente, quanto mais humilhante para a vítima, melhor para o algoz, que ganhava mais pontos hipotéticos de respeito com a turma. E nada melhor para maximizar o fator vergonha do que executar a pilhéria em um lugar com muitas pessoas, incluindo meninas. Conforme já citei, eu era um pré-adolescente com nível de babaquice ralo e medo de represália alto, então não gostava de armar esse tipo de brincadeira para meus colegas. Como eu não fazia com os outros, esperava que não fizessem comigo. E funcionou. Por muito tempo passei incólume às investidas maldosas contra mim. Até o fatídico Dia da Kalunga.
Estávamos eu e mais uma meia-dúzia de amigos jogando bola na quadra do prédio, evento que ocorria mais ou menos uma vez a cada morte do Niemeyer, devido minha aptidão futebolística. Eu, zagueiro, estava de posse da bola (e presumo que nesse momento Niemeyer havia ressuscitado e morrido de novo, dada a improbabilidade desse fato), preparando um L1+Triângulo (conhecido pelos mortais e pelo Galvão Bueno como lançamento, cruzamento ou algo assim) para o atacante matador. O sol ofuscou meus olhos enquanto eu mirava e, no começo do movimento com a perna canhota, senti o vento minuano adentrar os meus glúteos máximos trespassando minha roupa de baixo, por onde deveria haver uma bermuda velha. Era tarde, minhas bermudas jaziam amontoadas sobre meus pés, abaixadas por um filho da puta bem no momento que ia realizar o passe. Passe que nunca foi executado.
Com meus reflexos de jabuti, levantei minhas bermudas de forma desengonçada, tropeçando e galopando na quadra enquanto os meninos riam, as garotas riam, os pássaros riam, as árvores riam, os prédios riam, até o porra do Chamburcy ria. O condomínio inteiro estava gargalhando. Menos eu.
Por quê? - eu pensava - Por que eu? Eu que não fazia mal a ninguém, não xingava (quase) ninguém, fazia minha lição de casa em dia, obedecia meus pais e respeitava os mais velhos. Eu, que dava um carinha de lambuja no The King of Fighters! BASTA! Eu havia cansado de ser bonzinho. Iria me vingar do carrasco que tinha me submetido à tal tortura social vil e imoral. Mas eu não poderia pagar exatamente na mesma moeda, seria muito previsível. Que tipo de gênio do crime eu seria se simplesmente revidasse ali mesmo, no jogo, no próximo lance? As pessoas iam no máximo me chamar de "paga pau", "imitão" e similares ("paga rola", "invejoso", "copião", "paga lasca", "baba ovo", "puxa saco". Esse dicionário de sinônimos foi patrocinado por Dicionário inFormal). Contive minha fúria e desejo de vingança e apenas soltei uma risada falsa, como se não tivesse ligado para o que havia acontecido.
O jogo terminou e, poucas horas depois, a mãe desse amigo o chamou para irem a uma das lojas da maior rede brasileira de papelaria e materiais de escritório. Por motivos jurídicos, vamos chamá-la de Kalango. Meu amigo, por ser portador do mais alto teor babaquístico, achou que estávamos resolvidos quanto ao ocorrido no futebol e me chamou para ir com eles. Aceitei de pronto, pois ao contrário do que ele pensava, meu plano maligno estava sendo minuciosamente arquitetado de forma que aquele dia seria o dia mais vergonhoso da vida dele.
Chegamos na Kalango e fomos às compras. Digo, a mãe do meu amigo foi às compras, porque nós éramos pré-adolescentes com mesadas pífias que eram destinadas à fliperama e Dip'n'Lik.
Venture Capital dos garotos da Vila MonumentoEu e meu amigo saímos andando pela loja, vendo os calendários de 2000 e pouco, os cadernos, apontadores, caixotes de papelão e todas essas coisas altamente empolgantes e provedoras de adrenalina que apenas as papelarias nos proporcionam.
Eis que o grilo da consciência (só que ao contrário) soprou no meu ouvido uma ideia genialmente malévola: meu amigo teria sua calça abaixada ali mesmo, dentro da Kalango! Não consegui conter minha risada maldosa ao ter tal meditação brilhante (na verdade essa parte da risada eu inventei para fins imersivos). O plano era o seguinte: despisto meu amigo, se aproveitando da arquitetura da loja, com corredores limitados por estantes de mais de 2 metros, e saio desse corredor. Fico espionando-o e, quando ele baixar a guarda, entro no corredor de forma furtiva e PIMBA ("pimba" nesse contexto é foda) BUM ("bum"?!?) ZÁS (ufa, achei uma onomatopeia genérica o suficiente), abaixo as bermudas do safado!
Meu plano estava entrando em ação. "Vou ver um negócio ali e já volto" - e com essa frase extremamente inteligente e dissimuladora, maquiei minhas verdadeiras intenções e me dirigi ao final do corredor. De longe, eu espiava o meu inimigo, que caminhava lentamente. Trajando uniforme do colégio, aquele ser criminoso teria suas bermudas azuis de nylon removidas em tempo recorde pelas minhas mãos gatunas e precisas. Quem sabe eu até conseguiria fazer ele tropeçar na bermuda, levando um tombo e batendo a cara em uma estante de grampeadores, possivelmente vindo a falecer?
Voltei a me esconder para esperar o momento da aproximação, tal qual um guepardo que espreita sua presa, prestes a correr de forma silenciosa e realizar o abate com maestria. Aguardei. Observei. Aguardei. Observei. Respirei fundo. Aguardei. E quando olhei, ele havia sumido do corredor. DROGA! Será que perdi a caça? Passados poucos momentos de aflição, olhei pro corredor ao lado e voilà! Lá estava ele! O maldito cambiou corredores, mas ainda estava dentro da zona de tiro. Me escondi e aguardei. Quando observei, estava lá ele, de costas, esperando o coup de grâce. E eu, esperando minha redenção. É agora!
Prendi a respiração - técnica militar de espionagem - e, em passos largos, tomando extremo cuidado para não fazer barulho, fui me aproximando. Um tigre sorrateiro e auspicioso, a cada segundo mais próximo de sua vítima. Eu estava à distância de ataque. Imaginem numa câmera lenta que me preparei e, num lapso de segundo, minhas mãos sentiram a textura daquela bermuda azul enquanto a agressão era desferida. Agora, o vento que eu sentia não era no meu traseiro desnudo, mas nos meus antebraços que se deslocavam com a velocidade de uma bala, ajudados pela gravidade. ZÁS! A bermuda de meu oponente estava no chão! Vitória! Os demônios da minha consciência festejavam a minha vendeta. Na minha cabeça, Lord Vader entregava meu sabre de luz sith e dizia: "Come to the Dark Side!". Minha vingança estava realizada!
Ainda em slow motion, eu, com um sorriso maléfico estampado, não havia nem terminado de me levantar ainda quando meu amigo começou a virar seu rosto para mim. Eu estava ansiosíssimo pra ver o que aquele filho da puta ia fazer. E AGORA, HEIN? Abaixei suas calças NO MEIO DA KALANGO, SEU TRÔCHA! Então ele terminou de se virar.
E eu surtei.
O "meu amigo" era um cara QUE NÃO TINHA NADA A VER COM O MEU AMIGO!!! Era um estranho que estava passeando pacíficamente na papelaria e, acidentalmente, possuía um biotipo semelhante e usava roupas muito parecidas com as do meu amigo. MAS NÃO ERA O PORRA DO MEU AMIGO. Abaixei a calça do caboclo errado! CACETE!
O transeunte aleatório da Kalango, ia levantando suas calças desengonçadamente, sem entender merda nenhuma do que havia acabado de acontecer. Desnecessário dizer que corei feito molho de tomate em questão de nanossegundos. O que ocorreu a seguir, foi quase que integralmente apagado da minha memória, tal a carga de hormônios que invadem o seu cérebro quando você abaixa a calça de um estranho no meio de um local público. Só lembro de um monte (mas um monte, um monte MESMO) de "DESCULPA!" e "ACHEIQUE-VOCÊRA-OUTRAPESSOA" embolados com os "NÃO-NÃO-", "NÃO-TEMPRO-BLEMA", "MFJRUSFMOW" e os risinhos envergonhados da contraparte.
Diversos papparazzi flagraram o momentoQuando finalmente consegui voltar ao normal, o rapazote já estava indo embora, provavelmente aterrorizado pela violação de indumentária (!) que lhe causei. Notei que o corredor, agora, estava vazio. Fiquei parado e, passados cerca de 30 segundos, meu amigo dobrou a esquina do corredor e adentrou neste. Nesses 30 segundos, que duraram mais do que uma partida de beisebol inteira, refleti muito e cheguei à conclusão de que se você não é um filho da puta, não pode fazer filho da putice senão você se estrepa. E então, como numa cena galhofa de Sessão da Tarde, me senti iluminado e todos os episódios de He-Man que assisti fizeram sentido. VALEU, HE-MAN!
"Você não vai acreditar o que acabou de acontecer..." - contei tudo para meu amigo, decidido a nunca mais descambar pro lado negro da Força. Ao terminar de ouvir a narração do fato, ele me disse: "Larga a mão de ser mentiroso!".
Tive as calças abaixadas, fui zoado, paguei o maior mico da minha vida e ainda saí como mentiroso. Se isso não é uma história comovente, fiquem com minha última tentativa de arrancar prantos de vossas faces. Se não funcionar, desisto.
Há males que vem para o bem. Depois desse episódio, esgotei todo meu estoque latente de babaquice e o mundo ficou um pouco menos idiota. Mas até hoje me pergunto, será que em algum lugar do mundo tem um cara que teve as calças abaixadas por um estranho no meio da Kalango, contando essa história a alguém?
Não sei, sei que nesse dia, o inefável Dia da Kalunga, aprendi uma lição. O crime não compensa.
P.S.: Leu TUDO ISSO? Parabéns pelo exercício de paciência! Agora, já que você leu ATÉ AQUI, mereço um retweetzim ou um "Curtir" no Facebook, hein?
P.P.S.: Leu tudo isso NO TRABALHO? OK, mereço então no mínimo um retweet e um comentário por tornar seu dia mais divertido, né? ;)
P.P.P.S.: Não gostou? Bom, pelo menos você assistiu um vídeo de japoneses se batendo e cabulou um pouco de trabalho, JÁ VALE, NÉ?
P.P.P.P.S.: Obrigado aos amigos que me apoiaram e cobraram muito para que eu continuasse escrevendo. Esse post é dedicado a vocês (que sabem quem são), espero que gostem ;)