Galpões, professoras de primário e poderes da contabilidade
O ano era 1994 ou 1995, não lembro ao certo. Pré-escola, primeira série, por aí. Sei que, como bom procrastinador, desde a pré-escola eu não gostava de fazer lição de casa. Normalmente, minha mãe, super-atenciosa com seu rebento, sentava-se ao meu lado e me ajudava a resolver todas aquelas difíceis tarefas passadas pela professora como "pintar este desenho", "recorte e cole três fotos de meios de transporte" e "escreva uma historinha bem bonita".
Um dia a tarefa de "recorte e cole" era tão difícil, MAS TÃO DIFÍCIL, que nem eu e nem minha mãe achamos exemplos nas revistas que tínhamos em casa -- e olha que tínhamos MUITAS -- e eu fiquei sem fazer a lição de casa. Tudo bem, como minha mãe sabia que não havia sido por falta de vontade, minha professora também iria entender, certo? Errado. Quando mostrei a página em branco para a professora, esta me questionou: "Não fez a lição por que, Bruno?" - eis que eu, sentindo a fúria sendo construída nas palavras do ser maligno das profundezas da tutora, respondi: "Bom, professora, eu e a minha mãe n..." - "O QUÊ?!?!?!?!?!?!?!?" - fui rispidamente cortado pela monstra mestra, (conforme uso não-hiperbólico do negrito e das milhões de interrobangs) que continuou - "Quem tem que fazer a sua lição é VOCÊ! E NÃO A SUA MÃE!". Nem pensei em explicar praquele ser demoníaco que minha mãe apenas me ajudava e NÃO fazia a minha lição POR MIM. Limitei-me apenas a fazer esta cara :'(
Claro que esse causo não fez com que eu parasse de fazer minhas lições de casa ou parasse de gostar da minha professora, que infelizmente morreu poucos anos depois, devido maldições lançadas pelos pequerruchos uma doença sorrateira e filha da puta. Aliás, façamos um minuto de silêncio em homenagem à minha primeira professora.
Pronto. Voltemos ao texto. Aconteceu que um ano depois, na primeira (ou segunda?) série, uma das lições de casa envolvia o clássico "apresente para a classe a profissão dos seus pais". Bom, minha mãe era dona de casa. Limpava a casa, fazia comida, me buscava na escola... Mas e o meu pai? Eu sabia que ele andava engravatado e sabia também que ele era CONTADOR. Mas... o que faz um contador?
Na minha cabeça, o contador era um profissional que tinha uma espécie de perícia -- quem sabe até um super poder -- de CONTAR as coisas extremamente bem e extremamente rápido. Não "contar" de contar histórias, "contar" assim: contratavam meu pai e levavam ele para um galpão mais ou menos assim:
Chegando lá, era dada a ordem: "Zé, conta quantas caixas tem aí, fazfavor?". Meu pai colocava a mão no queixo, ajustava o óculos, observava o ambiente por cerca de 30 segundos e, como num passe de mágica, respondia: "Quarentas duas mil, oitocentos e trinta e sete caixas.". O supervisor checava o resultado em um papel e exclamava: "EXCELENTE! Não está faltando nenhuma! Obrigado, Zé!", apertando a mão do meu pai e pagando-o bilhões de dinheiros devido à extra-sensorialidade necessária e importância de tal ofício.
Chegando em casa, fui, bem empolgado, perguntar pro meu pai o que afinal faz um contador, e quais técnicas ele usava. Quem sabe eu até conseguiria bater o recorde dos meus amigos no Onde Está Wally?
Te cuida, maluco!
Eis que meu pai respondeu: "Filho, é uma profissão MUITO empolgante!" - meus olhos brilharam - "nós calculamos impostos, verificamos o fluxo de caixa, tratamos da auditoria da empresa e... (blá blá blá blá blá)" - e então, a decepção tomou conta de mim, sutil como uma batida de caminhão.
Descobri, naquele dia, que trabalho é uma coisa que pode sim ser chata. Paciência, né? A vida é assim. Só sei que, depois daquele dia, eu decidi que NUNCA ia perguntar pro meu tio o que ele fazia onde ele trabalhava, a tal "QUÍMICA". A minha versão da história com certeza é melhor.